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Estimulação cognitiva em idosos saudáveis ganha evidência científica no Brasil em estudo da USP

Ensaio clínico randomizado conduzido por pesquisadores da USP acompanhou idosos por dois anos e demonstrou ganhos significativos em memória, saúde mental e qualidade de vida com programa estruturado de estimulação cognitiva.


Por Lina Menezes

Jornalista – Tudo Sobre Alzheimer | TV Faz Muito Bem +50


A estimulação cognitiva sempre esteve presente nas recomendações de especialistas como uma estratégia importante para manter o cérebro ativo ao longo da vida. No entanto, evidências científicas robustas, especialmente produzidas no Brasil, ainda são relativamente escassas.


Foi justamente para preencher essa lacuna que pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) conduziram um estudo inédito no país avaliando os efeitos de um programa estruturado de estimulação cognitiva em pessoas idosas saudáveis.




Os resultados foram apresentados hoje (11 de março em São Paulo), em coletiva de imprensa realizada pelo SUPERA – Estimulação Cognitiva, e trazem dados promissores: após dois anos de acompanhamento, os participantes apresentaram melhora significativa em memória, saúde mental e qualidade de vida.


O Ensaio Clinico Supera Cognitive Stimulation Study foi conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), com colaboração do Departamento de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP) e do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da USP, envolvendo idosos que não apresentavam comprometimento cognitivo nem diagnóstico de demência.


Segundo as pesquisadoras, presentes no evento - Dra Thais Bento e Dra Sonia Brucki, trata-se do primeiro ensaio clínico randomizado de longa duração realizado no Brasil avaliando um programa estruturado de estimulação cognitiva em idosos saudáveis.


Pesquisa robusta para testar hipóteses



Durante a apresentação, a neurologista Dra. Sonia Brucki, referência nacional em neurologia cognitiva - e uma das pesquisadoras responsáveis pelo estudo-, destacou a importância do estudo justamente por seu desenho científico rigoroso.


Segundo ela, pesquisas desse tipo são fundamentais para ir além das hipóteses e avaliar evidências concretas.


“Esse tipo de estudo é importante para comprovar hipóteses e avaliar se intervenções realmente produzem benefícios mensuráveis”, explicou a neurologista.



A gerontóloga Dra. Thais Bento, autora principal do estudo e pesquisadora da USP, apresentou detalhes do acompanhamento longitudinal dos participantes. Após 24 meses de intervenção, os pesquisadores ainda realizaram um follow-up seis meses depois, para avaliar se os ganhos se mantinham.


O resultado foi encorajador.


Os benefícios observados ao longo do programa continuavam presentes, sugerindo impacto positivo também na chamada reserva cognitiva — conceito amplamente discutido na literatura científica como um dos fatores de proteção contra o declínio cognitivo associado ao envelhecimento.


Experiência vivida pelos participantes



Durante o evento, também esteve presente a influenciadora Rosângela Marcondes, que participou do estudo e relatou sua experiência como integrante do grupo de pesquisa.

Segundo ela, o grupo reunia pessoas de diferentes idades, incluindo participantes com mais de 90 anos, e o clima entre os participantes foi marcado por motivação e satisfação com a experiência.


O depoimento reforça algo que a ciência já aponta: intervenções cognitivas muitas vezes trazem não apenas ganhos cognitivos, mas também benefícios sociais, emocionais e de autoestima.


Quanto estímulo é necessário?



Sonia Brucki, Thais Bento, Lina Menezes, Bárbara Perpétuo
Sonia Brucki, Thais Bento, Lina Menezes, Bárbara Perpétuo

Ao final das apresentações, jornalistas presentes puderam fazer perguntas às pesquisadoras.

Representando o portal Tudo Sobre Alzheimer, que atua com advocacy em políticas públicas, e a TV Faz Muito Bem +50, dedicada à promoção de um envelhecimento digno e inclusivo, questionei sobre qual seria a “dose mínima” de estimulação cognitiva necessária para gerar benefícios mensuráveis.


Segundo as pesquisadoras, os dados do estudo indicam que aproximadamente 18 meses de prática estruturada parecem ser necessários para que os efeitos positivos se tornem mais consistentes.


Outra questão levantada foi se programas estruturados como esse poderiam beneficiar pessoas com Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) — condição considerada muitas vezes um estágio intermediário entre o envelhecimento cognitivo normal e a demência.

As especialistas e Bárbara Perpétuo, vice-presidente do Supera, explicaram que, embora existam iniciativas do próprio Supera voltadas a esse público, as necessidades de pessoas com CCL ou com doença de Alzheimer são mais complexas e exigem abordagens terapêuticas específicas e acompanhamento clínico mais próximo.


Uma questão de saúde pública



Patrícia Lessa, Lina Menezes, Sonia Brucki, Lilian Liang, Rosângela Marcondes
Patrícia Lessa, Lina Menezes, Sonia Brucki, Lilian Liang, Rosângela Marcondes

Talvez uma das discussões mais relevantes levantadas durante a coletiva tenha sido a possibilidade de incorporar programas estruturados de estimulação cognitiva em estratégias públicas de promoção da saúde cerebral.


Perguntei às especialistas se iniciativas desse tipo poderiam fazer parte de políticas públicas de prevenção do declínio cognitivo, especialmente considerando que o Brasil vive um rápido processo de envelhecimento populacional.


Hoje, cerca de 15% da população brasileira já tem mais de 60 anos.


Nesse contexto, ações voltadas à promoção da saúde cerebral ao longo da vida tornam-se cada vez mais relevantes.


As especialistas foram unânimes ao afirmar que iniciativas estruturadas de estimulação cognitiva podem ter papel importante em estratégias de promoção de saúde, especialmente quando combinadas com outras medidas já reconhecidas pela ciência — como atividade física, engajamento social, controle de fatores de risco cardiovasculares e estímulo contínuo ao aprendizado.


Se novos estudos corroborarem esses achados, programas desse tipo poderão fortalecer o debate sobre políticas públicas de promoção da saúde cognitiva em larga escala.


Ciência brasileira com impacto internacional


Os resultados do estudo da USP que aponta eficácia da estimulação cognitiva não ficaram restritos ao cenário nacional.


A pesquisa já foi apresentada internacionalmente e publicada na revista científica International Psychogeriatrics, periódico reconhecido na área de envelhecimento e saúde mental.


Esse reconhecimento reforça a relevância do trabalho realizado no Brasil e amplia a visibilidade da produção científica nacional no campo das neurociências do envelhecimento.


Um passo importante



Lilian Liang, Luiz Moraes e Cláudia Franco
Lilian Liang, Luiz Moraes e Cláudia Franco

Investir em pesquisa científica aplicada ao envelhecimento é fundamental para um país que envelhece rapidamente.


Iniciativas como essa ajudam a responder perguntas importantes: o que realmente funciona para manter o cérebro ativo? Quais intervenções têm impacto real? E como podemos transformar conhecimento científico em estratégias de saúde pública?


Nesse sentido, vale registrar o reconhecimento à iniciativa do SUPERA, que investiu na realização de um estudo robusto e pioneiro.


Agradeço também a Luiz Moraes, diretor do Supera - que ajudou a idealizar e incentivar o estudo - pelo convite para acompanhar o lançamento e pela oportunidade de participar dessa importante discussão.


Quando ciência, iniciativa privada e pesquisadores se unem em torno de um objetivo comum — produzir conhecimento de qualidade — quem ganha é a sociedade.


E, sobretudo, as gerações que envelhecem hoje e as que ainda irão envelhecer.


 
 
 

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